Por Kamilla Dourado
Animando a própria história
Com roteiro reflexivo e magníficos efeitos visuais em 3D, animador coloca o Brasil, depois jejum de 7 anos, no maior encontro de animação gráfica do mundo.
Na-na-na-na! Quem nunca deu boas gargalhadas com as propagandas do siri da Brahma? Ou quem não se lembra da tartaruga e suas embaixadinhas? Esses são alguns dos trabalhos que compõem o currículo do publicitário por formação e animador e professor por profissão e ainda roteirista, Alê Camargo. Com uma história que ultrapassa os limites da nossa imaginação, o mais recente curta do animador e da 2ª turma Animus – Oficina de animação 3D, Rua das Tulipas surpreende o público e nos leva, literalmente, para além universo nos fazendo pensar sobre os nossos sonhos mais impossíveis. Na escola de animação onde leciona, nos concede uma entrevista e fala do ínicio de carreira, de sua vida, desafios, do premiado Rua das Tulipas e do curta A Ilha sua próxima criação.
Kamilla: Como você ingressou na área de animação?
Alê: Comecei a trabalhar com animação em 1997, mas antes eu trabalhava com outra coisa bem estranha, eu fazia maquiagem de monstros, máscaras. Então fui convidado por um amigo que trabalhava na Vetor 0, uma produtora de São Paulo, a fazer um estágio lá, mas a principio eu recusei e disse ao meu amigo que não sabia nada de 3D e ele insistia para que eu fosse que iria valer a pena. Chegando lá fui muito bem recebido pelo Alceu Batistão, dono da Vetor 0 que foi muito gentil, ele é um dos decanos da animação, um pioneiro no Brasil e a Vetor tem um papel fundamental no crescimento do 3D e hoje é a maior empresa desse ramo na América Latina. Comecei com um estágio não-remunerado, com a condição de não receber nada a não ser que aprendesse e começasse a produzir. Passei um bom tempo lá naquelas máquinas, até porque naquela época as máquinas não eram tão acessíveis como hoje, eram muito caras e não tinha como aprender em casa. Daí aprendi e fui contratado, fiquei na empresa de 1997 a 2002 e trabalhei em várias campanhas, em umas muito legais de cervejas, como aquelas dos animais, do siri e da tartaruga da Brahma, todas eram feitas lá na Vetor 0, não era um trabalho meu, era um trabalho de equipe e foi uma grande chance aprender com pessoas mais experientes.
Kamilla: Há quanto tempo você trabalha com o 3D aqui em Brasília?
Alê: Cheguei aqui em Brasília em setembro de 2006 a convite do Mário Lelis o dono da OZI – Escola de Audiovisual de Brasília, para dar o curso de animação gráfica, mas na verdade a minha formação é publicidade e o mercado da animação aqui no Brasil é voltado para essa área.
Kamilla: Nesses 11 anos de carreira qual foi o melhor momento?
Alê: Sem dúvida foi ter vindo para Brasília e começar a trabalhar na OZI.
Kamilla: E o pior?
Alê: Por sorte não tive piores momentos, o pior momento se posso dizer assim foi quando sai da Vetor 0 e comecei a fazer freelancer, porque o ruim de trabalhar com freelancer é que apesar de fazer um trabalho para o mês inteiro você não sabe se vai ter trabalho para o próximo, você sempre fica naquela expectativa de encontrar outro trabalho.
Kamilla: Você é professor, roteirista, produtor, diretor. Dá pra conciliar tudo? Uma função complementa a outra?
Alê: Sim, uma complementa a outra e tudo faz parte de uma mesma função. Eu não me considero apenas professor ou diretor, tudo faz parte e uma coisa ajuda a outra, estou conseguindo fazer um pouco de tudo e a maneira que ensinamos aqui na OZI é voltada para a prática, então não é algo que eu possa fazer se não souber.
Kamilla: Dizem que todo animador tem uma mania de criança, é verdade?
Alê: Com certeza, absolutamente. Você pode ver isso pelos bonecos em cima dos computadores. Ser animador é muito legal se você tiver essa coisa de ser criança, você não pode chegar com uma cara sisuda, todo sério dizendo que é um animador, isso não existe. Um animador tem que ter a capacidade de rolar no chão se precisar, porque o animador também é um ator, na verdade quando você anima você atua através de um personagem, é interessante porque aqui na OZi cada personagem que um aluno anima vai criando uma semelhança com seu animador, é bem engraçado, depois de um tempo eu consigo ver um filme e saber quem animou que parte, pois se você faz seu trabalho corretamente você nota nos gestos dos seus personagens os seus próprios gestos.
Kamilla: Os filmes de animação são voltados basicamente para o público infantil?
Alê: Há o mercado brasileiro e a animação. O mercado brasileiro é voltado para o público infantil, mas a animação pode ser usada para qualquer tema, pois ela é muito mais vasta que apenas algo para crianças. Eu adoro filmes de criança quando são bem feitos, mas a gente não pode limitar o potencial do meio, é como falar que cinema é só para adulto. Falar que animação é só para criança é coisa de momento, pois no Brasil não há filmes de animação para adultos. Se você pegar, por exemplo, Persepólis, um filme de animação francês vai ver que ele conta a história da infância de uma diretora no Irã, é uma história triste e totalmente feita para adultos. A animação é muito acessível, muita gente gosta, é legal usar a animação como ferramenta para contar uma história, a sua história.
Kamilla: É um trabalho muito detalhista. Não é cansativo?
Alê: Eu sou suspeito para dizer, mas para mim é um grande prazer ficar dias trabalhando em uma cena. Muitas pessoas têm a sensação de que animação é uma coisa fácil, animação é difícil, mas é legal! É um trabalho muito detalhista que exige muito do profissional, por isso é bom que você adore o que faz, porque não vai ser fácil. As pessoas confundem animação por computador com animação de computador, ele sozinho não faz nada, você que faz ele é só uma ferramenta.
Kamilla: Como é o mercado de animação aqui em Brasília e no Brasil para quem deseja ingressar na profissão?
Alê: No Brasil 90% do mercado é voltado para a publicidade, têm surgido algumas oportunidades com web e aos pouquíssimos vêm surgindo longas-metragens, seriados para TV. Para quem está começando o melhor mercado é mesmo o publicitário, no Rio de Janeiro e em São Paulo é onde se concentram as maiores produtoras então é mais fácil começar por um lugar desses. Em Brasília tem algumas produtoras no Brasil para quem deseja ingressar na profissrofissionale saber quem animou o que pessoas mais experientes.e o mercado é emergente com grande potencial de crescimento e já tem algumas opções de trabalho.
Kamilla: Você está trabalhando em um seriado que vai ser exibido na TV ESCOLA...
Alê: Sim, mas por enquanto não podemos dar muitos detalhes,
Kamilla: Mas é sobre a vida de Santos Dumont, não é?
Alê: É, ainda não tem título definido, mas deve estrear somente em 2009. Eu estou trabalhando como coordenador da parte 3D e a OZI está com uma equipe de dez pessoas talvez mais trabalhando só no 3D, em fulltime, em qualquer momento do dia ou da noite você pode encontrar alguém trabalhando na produtora, está sendo uma forma de aproveitarmos o talento do pessoal que estuda com a gente, escolhemos os melhores das turmas, os alunos que se destacam no curso.
Kamilla: “Rua das Tulipas”, o filme da 2ª turma ANIMUS foi selecionado para o SIGGRAF 2008. Qual é a sensação de estar participando do maior encontro de animação do mundo?
Alê: É fantástico, desde 2002 o Rua das Tulipas foi o único curta brasileiro a ser selecionado. É muito difícil entrar, eles têm um limite de tempo de duas a três horas para ver o que há de melhor no que eles encontraram, pelo pouco tempo, eles dão preferências à curtas de 30 segundos e o Tulipas tem 10 minutos! Então é incrível, é um sinal de que alguém lá dentro gostou muito dele. A gente tenta explicar para os Tulipas (assim são chamados os alunos que animaram o filme) a importância disso, mas profissionalmente é muito bom saber que alguma coisa estamos fazendo certo e as pessoas estão gostando.
Kamilla: Você pode falar algo do curta da 3ª turma da OZI?
Alê: Todos os filmes produzidos na OZI são bem diferentes um do outro, porque é muito fácil fazer Calango (filme da 1ª turma) II, III porque ele fez algum sucesso e teve um ótimo desempenho, então a tentação é repetir a mesma coisa, mas a gente se policia para não fazer isso. O Calango era mais estilo Tom e Jerry, o Tulipas mais contemplativo, reflexivo, o A Ilha é uma comédia com situações bem estranhas. Gosto muito de contar a história de um personagem, no A Ilha o protagonista será o Edu e ele vai ser mostrado na maior parte do filme, então vai ter muita animação com ele e está ficando bem engraçado, bem característico, acho que as pessoas irão gostar. Estamos fazendo os últimos arremates em uma semana e depois vêm a música, os efeitos sonoros, mas deve estrear em um mês.
Kamilla: Há alguma ferramenta ou tecnologia diferente das usadas nas produções anteriores?
Alê: Na verdade não, mas a gente tem que se aprimorar. No Calango até por falta de experiência da minha parte de lecionar para turmas grandes, fizemos algo sem muitos efeitos especiais, mas com o tempo a gente vai se acostumando com o ritmo dos alunos e assim sempre forço mais do que na turma anterior. Uma grande diferença do Rua das Tulipas para o Calango foi o tempo que gastamos fazendo exercício de animação que foi maior para o Tulipas e isso reflete nos filmes, o Tulipas é mais sofisticado, tem uns efeitos e alguns momentos mais reflexivos, no A Ilha temos ainda mais tempo de animação.
Kamilla: O “Rua das Tulipas” nos faz refletir sobre sonhos que são grandes demais, o roteiro foi escrito por você, isso surgiu de alguma experiência pessoal?
Alê: O Tulipas surgiu de uma história que escrevi quando tinha 12 anos, então tem a ver com sonhos de criança, especificamente de menino de construir uma nave e viajar para outro planeta. Tem muito de mim nessa história, isso de ter a capacidade de com o seu talento e habilidades criar uma maneira de melhorar a vida, isso é muito pessoal, professor Paulino (personagem do filme) não sou eu, mas a sensação é. Muita gente me pergunta para onde ele foi, eu não sei, não me importa, tem muita gente que fica frustrada com o final do filme pois fica em aberto, mas isso é parte da proposta para cada um soltar a sua imaginação e definir o que aconteceu, se uma pessoa parar para pensar sobre isso então consegui o meu objetivo. Fiquei muito feliz quando apresentei o projeto e vi que muitas pessoas queridas, inclusive grande parte dos Tulipas se identificou com essa coisa de sonhar e fazer a diferença, não deixar a vida passar e fazer algo importante com ela, porque as vezes você fica mais velho e diz que não tem mais idade para fazer coisas, como por exemplo, aprender a mergulhar, isso é uma bobagem, a gente sempre tem idade para virar a mesa e fazer o que quiser. Eu fiquei muito feliz quando estreou o filme e a gente recebeu uma mensagem de uma conhecida dizendo que o filme a tocou, pois ela ainda tinha sonhos que queria realizar. É fantástico!
Kamilla: A sua esposa também trabalha na área...
Alê: Trabalha, ela é artista plástica, mas de uns tempos para cá começou a mexer com animação. Terminou o 1º curta no início do ano e ele foi para o Anima-Múndi e está concorrendo com o Tulipas. A animação é algo contagiante, todo mundo que chega perto gosta e começa a animar porque é muito legal, é divertido.
Kamilla: E quase não há mulheres trabalhando com animação...
Alê: Não sei o porquê, até acho um absurdo, mas aos poucos está mudando de figura. No Tulipas tinha somente uma garota na turma, agora já são cinco animadoras. Eu acho que as mulheres são mais cautelosas e não vão entrando de cara em um curso que acabou de chegar em Brasília, elas querem ver se vai funcionar, acho que é isso. Mas eu tenho amigas que trabalham na área há mais tempo do que eu, são minoria sim mas está mudando.
Kamilla: De todas as suas produções teve alguma que deu mais trabalho, mas que no final você olhou e viu que valeu a pena?
Alê: Todo curta tem problemas específicos é impossível dizer que teve uma que deu menos ou mais trabalho, sempre tem problemas novos, mas a gente sempre consegue resolvê-los, mas ai tem outra etapa que a gente sente falta dos problemas, ai acaba o trabalho fala ‘Acabou, o que eu vou fazer amanhã?’
Kamilla: Você arriscaria dizer que tem um preferido?
Alê: Impossível, é como escolher um filho preferido porque todos são filhos da gente, cada um tem a sua característica, suas vantagens e desvantagens, não tem como dizer qual gosto mais. Arrisco dizer que penso sempre mais no próximo, não que ele vai ser melhor que o anterior, mas a gente sempre tenta se superar.
Kamilla: O que você sente quando vê seus alunos seguindo os seus passos e se lançando em produção independente?
Alê: Muito orgulhoso, é fantástico e sempre estou á disposição para quando surgir alguma dúvida. Tenho visto vários projetos acontecendo e é incrível vê-los trabalhando por conta própria, contando suas próprias histórias.
1 comentários:
Muito legal essa entrevista...
Você fez por e-mail pu pessoalmente ???
Postar um comentário